blogue de poesia e teologia.

aqui não se escreve segundo o acordo ortográfico de mil novecentos e noventa.

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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Afirmação necessária

Se este blogue já teve uma série de posts subordinados ao tema «Imagens que valem mesmo mais de mil palavras», não pode deixar de se referir aqui, inequivocamente e em maiúsculas, que UMA PALAVRA VALE MAIS QUE MIL IMAGENS. Só porque acho mesmo que sim, e sem querer falar no Lógos cristão ou na dabar hebraica. Uma palavra vale mais que mil imagens. Ponto.

Autobiografia (xiii)

ou

MÁQUINA INTERIOR DE ESTALAR

a um gesto da Idalete

Por fora sou Sexta-feira Santa,
por dentro Domingo de Páscoa, Ressurreição

Por fora sou cortejo fúnebre,
por dentro banda filarmónica numa procissão

Por fora sou um adulto triste [triste por ser adulto]
por dentro sou ainda adolescente, quero ser criança
                          [«Se não fordes como crianças não entrareis no Reino dos Céus»]

Sei que por fora muitos me devem achar triste
por dentro sou só foguetes a estalar

Por fora acenas-me alegremente ao longe
por dentro [acho que também por fora] esboço um largo sorriso
                           - a amizade verdadeira tem todos os sinais de um grande amor

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Da amizade como amor

Nos últimos dias tenho dado por mim especialmente lamechas. Habituado a viver como quem acha que um homem não se deve emocionar e deve guardar ao máximo os afectos, penso que isso tem a ver com o facto de, nos últimos tempos, me andarem a fazer várias declarações de amizade. Como as raparigas da escola fazem todos os dias sentidas declarações de amor aos seus machos latinos, a mim têm-me feito declarações de amizade. Dei por mim a pensar se estas declarações de amizade que me têm feito não são também declarações de amor...
Vivemos num mundo que estragou a palavra amor - daí alguns iluminados acharem que o melhor é não a usarmos mais. O amor hoje é entendido como coisa de namorados, de marido e mulher, de marido e marido ou de mulher e mulher - o amor é o sexo, e este nem sequer no seu sentido global mas apenas no que comporta de genitalidade. Eu antes prefiro ser o mais pequeno dos filósofos e o último dos românticos e achar que ainda vale a pena falar em amor. Vale a pena falar em amor sempre que este for uma de três coisas: Ἔρως, φιλíα ou αγάπη. Vale a pena falar em amor quando ele for uma destas três coisas, até porque quando ele é verdadeiro é as três coisas - desejo, ainda que não necessariamente sexual, fraternidade e caridade, dádiva gratuita. Vale a pena falar em amor quando se trata da amizade, porque o que temos pelos nossos amigos verdadeiros é verdadeiro amor - o que temos é medo de o assumir, porque ou o amigo é homem e passamos por maricas lamechas, ou a amiga é mulher e afinal não queremos amizade nenhuma mas antes outra coisa...
Dei por mim a pensar que se me fazem declarações de amizade é porque amo essas pessoas, até porque só algo maior do que eu - e há lá coisa maior que o amor (1 Jo 4)? - pode fazer com que alguém sinta apreço por uma pessoa como eu, que não é nem faz nada de extraordinário, que não é uma beleza de homem, que não é rico, que não tem amigos influentes nem nada dessas coisas que hoje interessam.
E foi assim que decidi escrever este texto, na esperança de que algum dos meus amigos o leia e saiba que eu o amo. Um amor sem nada de sexual, mas com tudo de fraternidade e de dádiva gratuita. Um amor que não é exclusivo - se um dia for exclusivo duvido que seja com alguma das amigas de hoje, já que sei que não será certamente com um amigo! - mas que é incondicional e sempre disponível. Um amor que me faz perder o medo de usar a palavra amor para poder dizer isso mesmo outra vez: amo-te.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A amizade é o encontro

Uma pessoa que conheço diz que gosta muito dos bocadinhos que passa com os amigos, entre o fim das horas de trabalho e o regresso a casa. Eu digo que também gosto desses momentos. Não apenas porque são tempos de partilha de ideias, e por isso contribuem para fazer avançar o mundo, ou, se quisermos ser menos ambiciosos, a ciência, mas porque é aí que se constroem as relações.
Na filosofia, e na antropologia filosófica em particular dentro desta, aprendemos que uma pessoa é uma unidade indivisível de corpo, alma e espírito, e está marcada pela condição mais básica da existência, a limitação ao quadro espacio-temporal. Assim, não há encontro verdadeiro entre as pessoas que não seja físico, por muito que nos multipliquemos em formas de comunicação virtuais, que já usamos desde que foram inventados os primeiros sistemas de escrita e se descobriram as artes visuais.
A sociedade de hoje tira-nos muitos dos encontros físicos que dantes aconteciam, criando ao mesmo tempo cada vez mais artifícios para a amizade (desde os telemóveis às redes sociais da internet, etc.). Penso que seja por aí que se justifique a afirmação com que começa este texto. Qualquer bocadinho em que nos encontremos com um amigo é único, é tudo, é uma suspensão do tempo e do espaço - não fosse Deus amor e a amizade verdadeira uma forma daquilo a que os gregos chamavam ἀγάπη.
Por mim, digo que deixei de acreditar nas amizades que se valem de um primeiro encontro, ou de encontros que vão lá longe. A amizade é um processo, vai-se fazendo, faz-se nos encontros reais e virtuais (é aqui que servem os encontros virtuais, quando os reais não se podem proporcionar), não se faz num acontecimento passado onde houve identificação. Desisti de esperar pelos que não me respondem, por muito que criem mil e uma desculpas, e esperar antes pelos bocadinhos entre o fim do trabalho e o regresso a casa, esses onde se cria a civilização do amor.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Arsenal de guerra

O humor é a última arma de um homem
(ou) será antes o amor?

O humor é a penúltima arma de um homem
antes o amor.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Tempo da fome

 às pataniscas abandonadas

Todos os jornais e as notícias da tv anunciam: estamos em crise e é o tempo da fome.
No tempo da fome há pataniscas de bacalhau, intactas, nas papeleiras do metropolitano de Lisboa. No tempo da fome há pessoas que não comem tudo, nos restaurantes, porque estão saciadas. No tempo da fome as sobras das cantinas públicas têm de ir para o lixo - por estarmos em crise não podemos dispensar as regras de higiene e saúde pública! No tempo da fome emigrantes e sem-abrigo alimentam-se nos contentores do lixo do lidl - este é o tempo da lei, e as coisas, como as pessoas demasiado novas ou demasiado velhas, passam do prazo e têm de ser mandadas fora, ainda que na verdade consigam matar a fome aos homens que fazem de gatos vadios. É o tempo da fome, e os que fazem a caridade choram porque já lhes vai sendo difícil responder a todos os que, chorando, deles se aproximam pedindo, ao menos, um pão. É o tempo da fome, em que um telemóvel faz mais falta que um pão e em que um cigarro vale um maço de vinte sopas.
É o tempo da fome, e o homem sem pão esqueceu-se de que não vive só de pão mas de toda a Palavra que sai da boca de Deus; esqueceu-se de que se vivesse alimentado pela Palavra teria decerto mais pão.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Desconstruir o Homem e não o texto

Com a alegria própria de quem sabe que a maior parte das coisas de que gosta são tesouros escondidos (tesouros porque as acho valiosas, escondidos porque, na sua maioria, não são do conhecimento geral, ou me parecem ser menos conhecidas do que deveriam) decidi, um dia destes, no meio de uma conversa em que me pareceu vir a propósito, apresentar a uma pessoa a poesia de Adília Lopes. E, mal os poemas chegam às suas mãos, comecei a ser todo desilusão. Percebi que ainda há muito quem não perceba o objectivo da arte contemporânea, e da poesia em particular.
A pessoa em questão, que ensina Língua Portuguesa, pôs-se a desmontar todo o processo de criação dos textos, dizendo-o ridículo, básico, e classificando-o como não-poesia. Seria, no máximo, uma brincadeira de crianças, uma brincadeira com as palavras. Era, certamente, obra de quem não anda bem da vida.
Pus-me a pensar - embora não o tenha dito (sou um cobarde, no fundo sou um cobarde, e preferi entrar na onda de dizer que, «'tá bem, do ponto de vista do esforço de composição literária não é nada muito evoluído») - que essa pessoa desligou a máquina de sentir e vive só com a máquina de pensar - então, pensei também que essa pessoa não deve andar, certamente, de muito bem com a vida...
Mas com este texto não pretendo fazer juízos de valor sobre o estado da vida dos outros, antes perguntar-me por algo que me parece mais legítimo. Porque é que diante da arte teimamos em montar toda a máquina de análise de pensamentos e de processos criativos e literários e artísticos e tudo em vez de, simplesmente, sentirmos a arte? Porque é que quando, finalmente, a arte quer voltar a, só, «fazer-nos cair de joelhos», teimamos em pisá-la com os nossos fantásticos métodos racionais?
Eu não prefiro a poesia que é coito com as palavras, que é corte às palavras. Prefiro aquela que me desconstrói, que me faz pôr questões, que cria imagens que vão além do racional e do visível, que cria novos mundos. Prefiro um poema onde se compara Deus a uma mulher-a-dias e onde se diz que achamos que a fé é pirosa e a vida não presta - onde o texto "racional" vai tão longe? - a um onde se queira falar de Deus mas onde se tenha tanto cuidado em mimar as palavras que se esqueça o objecto do poema. Prefiro a poesia onde nos possamos desconstruir como homens do que aquela em que nos limitamos a desconstruir o processo criativo do homem que fez o poema.
Na mesma conversa, uma amiga a quem já tinha dado a conhecer Adília Lopes, interrompeu apenas para dizer: «Eu sou só uma leiga, por isso gostei muito deste

Nota 4

Se tu amas por causa da beleza, então não me ames!
Ama o Sol que tem cabelos doirados!

Se tu amas por causa da juventude, então não me ames!
Ama a Primavera que fica nova todos os anos!

Se tu amas por causa dos tesouros, então não me ames!
Ama a Mulher do Mar: ela tem muitas pérolas claras!

Se tu amas por causa da inteligência, então não me ames!
Ama Isaac Newton: ele escreveu os Princípios Matemáticos da Filosofia Natural!

Mas se tu amas por causa do amor, então sim, ama-me!
Ama-me sempre: amo-te para sempre!

porque é bonito».
Eu, que, em todos os sentidos, não quero ser mais que um leigo, preferia de todas as formas ter ido apenas por aí.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Todos os Santos podem ter um dia de atraso

Hans Urs von Balthasar dizia que os teólogos devem ouvir os que mais amam, porque são os que mais sabem de Deus. E quem são os que mais amam senão os Santos? Se todos podemos ser santos é, sem dúvida, porque todos podemos amar - não fosse o amor o primeiro mandamento.
Como prova o recente casamento entre dois velhotes num lar de idosos, nunca é tarde demais para amar. Como prova a história de Córdula - não houvesse também Agostinho, Francisco de Assis e tantos outros que a Igreja canonizou ao longo dos séculos - nunca é tarde para ser santo.
Por isso, amemos, não tanto para que os teólogos nos dêem ouvidos, mas para que possamos ser santos, aqueles que anunciam um mundo novo, em que as túnicas são branqueadas com o sangue do Cordeiro.

Fiéis defuntos

Hoje passei por uma repartição do Centro Nacional de Pensões onde se podia tratar de pensões de morte. Pensei entrar e pedir uma para mim. Não que quisesse ser um morto-vivo, como os zombies, que ainda respiram mas estão já podres, por dentro e por fora. Antes porque gostava de ser como os monges cartuxos, que morrem para o mundo para poderem viver só para Deus. Lembrei-me daquela frase de Teresa de Ávila: «Só Deus basta». Emocionei-me ao pensar nas campas dos monges de clausura, sem pedras, sem estatuetas, sem fotografias, sem nomes, sem sequer uma elevação que diga que ali jaz o corpo de uma pessoa - coisa que é bem mais que um invólucro. A campa deles só tem uma cruz, como sinal de que também eles pensam que só Deus basta. Pensei ainda nos alpendres onde se amontoam os ossos dos cartuxos, decompostos os seus corpos. Lá, eles são só ossos entre ossos, homens entre homens, cartuxos entre cartuxos: são os que escolheram voluntariamente que só Deus os trate pelo nome.
Penso nisto tudo e em como gostaria que só Deus soubesse o meu nome. Para que esse resto de solidão me lembrasse que há sempre um resto de companhia. Porque quero viver como quem sabe que só Deus basta.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Informações úteis sobre o neo-arianismo

Em associação com o meu perfil de facebook, este blogue não pode deixar de ter uma entrada que remeta para alguns dados relativos à última obra "literária" de José Rodrigues dos Santos. Em primeiro, esta resposta da equipa do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura. Depois, a recordação de que a resposta da Igreja à obra já foi dada nos Concílios de Éfeso e Niceia (tendo ficado devidamente resolvida no segundo destes). Questionar a divindade de Jesus não é coisa nova - se fosse questionada a humanidade de Jesus, como com Bultmann, também não era nada de novo -, nem sequer é novo fazê-lo com intuitos comerciais. Tratar os teólogos como parolos, decidindo por sua cabeça o que será isso (e distinguindo os teólogos dos "historiadores", estes sendo os que analisam a Escritura apenas com o método histórico-crítico [sobre os métodos de análise bíblica aconselho a Introdução de Jesus de Nazaré de Ratzinger/Bento XVI ou o documento da Santa Sé sobre a interpretação da Bíblia na Igreja]. Note-se que os historiadores seriam os bonzinhos e os teólogos os malandros, que não trabalham com base científica e escondem partes de informação), também não é nada de novo - afinal, a teologia precisa hoje mais do que nunca de sair para a rua a reclamar o seu lugar na casa da ciência.
Tratar os teólogos como parolos e depois usar apenas uma tradução da Bíblia, como se de Deus Nosso Senhor se tratasse, isso sim é verdadeiramente estúpido. Isto digo eu, que tive de aprender grego, latim e ainda uns rudimentos de hebraico. Que tenho de ler edições críticas da Bíblia na língua original e, quando em estudo, confronto com essa edição pelo menos quatro traduções para português. Mas eu é que sou parolo, porque teólogo, e o senhor jornalista é um iluminado, mesmo que se farte de dar erros ortográficos e sejam os revisores da Gradiva a escrever-lhe os livros...

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Blogue de serviço público

Sim, camaradas, amigos, companheiros, palhaços deste circo que é a vida, ainda é possível travar o acordo ortográfico de 1990! Visitem este site e, já agora, vejam este vídeo que ajuda a reflectir sobre a questão:


N.B.: Aqui vos fala alguém que já anda a ser coagido a escrever segundo a "nova" grafia no seu emprego. Esta não é uma luta individual, é uma luta de todos, independentemente dos pontos de vista políticos, religiosos, sociais e etc.. Rejeitar o acordo é querer bem à língua portuguesa (até porque, mais ano menos ano, o brasileiro pode [vai?] autonomizar-se como língua, e depois ficamos nós com um filho alheio nos braços...)!

Nobel da Literatura 2011

Deixa-me bastante satisfeito que o Nobel da Literatura deste ano seja um poeta. No caso, Tomas Tranströmer, sueco, de oitenta anos. Dele, deixo o poema Efter någons död, no original (escrito e lido) e em versão portuguesa de Carlos Vaz Marques, a partir da tradução inglesa de Robert Bly e de uma versão francesa anónima, disponível no youtube.

Efter Någons Död
 
Det var en gång en chock
som lämnade efter sig en lång, blek, skimrande kometsvans.
Den hyser oss. Den gör TV—bilderna suddiga.
Den avsätter sig som kalla droppar på luftledningarna.

Man kan fortfarande hasa fram på skidor i vintersolen
mellan dungar där fjolårslöven hänger kvar.
De liknar blad rivna ur gamla telefonkataloger—
abonnenternas namn uppslukade av kölden.

Det är fortfarande skönt att känna sitt hjärta bulta.
Men ofta känns skuggan verkligare än kroppen.
Samurajen ser obetydlig ut
bredvid sin rustning av svarta drakfjäll.

DEPOIS DA MORTE DE ALGUÉM

Foi um choque
seguido de um cometa que deixa atrás de si uma cauda imensa e cintilante.
Obriga a que nos recolhamos. Desfoca as imagens da tv.
Deposita as suas frias gotas nos cabos telefónicos.

Podemos continuar a esquiar ao sol de inverno
por entre árvores ainda com alguma folhagem.
Parecem páginas arrancadas a um velha lista telefónica.
Os nomes engolidos pelo frio.

Continua a ser belo sentir-lhes o coração a bater
embora a sombra tantas vezes se mostre mais real do que o corpo.
O samurai parece insignificante
ao lado da sua majestosa armadura.

sábado, 17 de setembro de 2011

Ditadura do relativismo

Apenas algumas notas

O relativismo é uma ditadura porque:
1. Ao afirmar o próprio homem como referencial da verdade (não há a verdade mas antes a minha verdade), limita as relações - não há discussão possível, pois estamos sempre num choque de verdades individuais - e dificulta a resolução de conflitos.
2. Torna o homem mais pobre. Porque uma liberdade que começa onde a do outro termina é mais pobre que uma que comece onde comece também a do outro.
3. Uma verdade relativa leva ao desrespeito pela liberdade alheia (em particular a liberdade de expressão). Qualquer acto livre de um outro que choque contra a minha verdade (seja na minha forma de pensar seja na de agir) é mau, condenável e imperdoável. Quem vive uma verdade relativa é incapaz do perdão verdadeiro, por muito que admita perdoar certos gestos.
4. Quem faz de si mesmo o centro da verdade exige mais dos outros do que de si. Os outros têm de me respeitar, ajudar, perdoar, mas eu não preciso de ter um mínimo de preocupação e respeito para com eles.
5. Tudo é relativo, e relativo a alguém, no caso, a mim. É um regresso ao axioma de Protágoras, do «homem como medida de todas as coisas», quinhentos anos depois de Galileu, homem, que, claro, só a Igreja Católica não compreendeu, como se os outros todos não agissem hoje como se o homem fosse o centro do universo...

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

E a mim, quem me defende?

Há discussões que de si nascem estúpidas. De parte a parte. De um lado, porque há coisas que, devia-se saber, podemos pensar mas não podemos dizer, porque «a forma como se diz também diz», e quando é muito violenta pode causar equívocos. Do outro, porque a emoção sobrepõe-se quase sempre à razão e, já o sabia Jesus, o que mais ofende não é a mentira mas antes o confronto com a verdade: ««Eu tenho falado abertamente ao mundo; sempre ensinei na sinagoga e no templo, onde todos os judeus se reúnem, e não disse nada em segredo. Porque me interrogas? Interroga os que ouviram o que Eu lhes disse. Eles bem sabem do que Eu lhes falei.» Quando Jesus disse isto, um dos guardas ali presente deu-lhe uma bofetada, dizendo: «É assim que respondes ao Sumo Sacerdote?» Jesus replicou: «Se falei mal, mostra onde está o mal; mas, se falei bem, porque me bates?»» (Jo 18, 20-23).
O mais estúpido, para mim, é que em certas discussões acaba por haver danos colaterais. Uns sofrem porque se acham ofendidos, ainda que não o sejam - por ser professor, assumo a minha quota parte de culpa, porque precisamos de ensinar os nossos alunos a saber interpretar textos, para que estes sejam cada vez menos fontes de mal-entendidos; outros sofrem por serem confundidos com o ofensor: ou acham que o ofensor é uma pessoa distinta, ou a família do ofensor leva toda por tabela.
Discussão mais ridícula é quando um dos ofendidos é uma terra. Por muito que se possa gostar de uma terra (e eu sou homem para já gostar de várias: Gaeiras, minha terra natal, Óbidos, Caldas, A-dos-Negros e Salgueiro, terras dos meus pais, Lisboa, Póvoa de Penafirme e Caparide, onde estive no Seminário, Queijas e Linda-a-Velha, onde hoje trabalho), uma coisa tenho de reconhecer, e é uma coisa bastante simples. O bom nome de uma terra não serve de tanto como o bom nome de uma pessoa. Percebo o gosto das pessoas pela defesa do bom nome da sua terra (ainda para mais se for a minha, de que também gosto, quanto mais não seja por isso, por ser minha, o sítio onde nasci e fiz os primeiros amigos), ninguém quer ser conotado com um sítio mal-visto, e além disso as pessoas têm natural gosto no lugar de origem - é como quando nos ofendemos porque dizem mal da nossa mãe, ainda que lhe reconheçamos o defeito criticado. Mas continuo a achar que o bom nome de uma terra serve de menos que o de uma pessoa. Vivi dois anos em Chelas, que deve ser das terras de Portugal com mais mau nome. O facto é que lá, no bairro, nunca ninguém me fez mal, nunca presenciei nenhum assalto, de resto, as pessoas à medida que me iam conhecendo até me cumprimentavam de forma mais cordial que em muitas terras mais pequenas. Isto para dizer que Chelas pode ter a má fama que quiserem mas quem lá vive sabe que, excepção feita a certas zonas, como em todos os sítios, até é um bairro pacato e agradável para os seus residentes.
Com o bom nome das pessoas as coisas são diferentes. As pessoas, ao contrário das terras, arranjam amigos, saem à rua, deslocam-se, precisam de arranjar emprego. Eu, se tiver mau nome, não arranjo amigos, não arranjo emprego, tenho medo de me deslocar porque sou olhado de soslaio. E sabemos que isso é um primeiro passo para doenças psicológicas graves (que, descansem, não tenho, só quero pôr as pessoas a pensar). Defender o bom nome de uma terra antes de nos preocuparmos com o bom nome das pessoas envolvidas, de um e outro lado, pode causar estes problemas. Porque o pior que pode acontecer a uma terra é que mais ninguém vá para lá viver (mas, como expliquei, os que lá estão sabem o que sentem, e não a deixarão), já o pior que pode acontecer a uma pessoa é bem mais grave. Porque às pessoas, vejo menos vozes a levantar-se em defesa!
A mim, quem me defende?

sábado, 10 de setembro de 2011

Só para dizer que não estou morto

Apercebi-me hoje, não sei bem a que propósito, de todo o meu apreço por pessoas que usam óculos escuros dentro de casa, o que se tornou factor relevante para dar actividade a este blog. O novo ano lectivo está aí e com ele a minha actividade intelectual mais acesa e a minha atenção à cultura mais desperta. Sejam bem vindos, de novo, a este nosso espaço.