So, come on and call me superficial,
like the sun does to the sea:
I’m here for the wine and some other time,
I’ll solve the world’s greatest mysteries.
Ao ler hoje a notícia de que o nosso primeiro-ministro-diplomado-ao-domingo decidiu aumentar novamente os impostos, lembrei-me logo da manifestação por que passei à tarde e que ilustra este post (coitados dos sindicalistas, mal sabiam que logo na mesma noite lhes iam mexer ainda mais nos bolsos...). Lembrei-me dela porque de facto o momento actual precisa de pessoas na rua, de uma revolta popular, pacífica e sem violência, mas em que mostremos, de facto, o nosso descontentamento com o estado actual das coisas. É precisamente porque o "povo" [seja lá o que isso, em abstracto, for... Chame-se-lhe, como o meu vizinho Rafael Bordalo Pinheiro, Zé Povinho] se demite da sua presença activa na polis, nas mais diversas dimensões, desde a política em si como à religião, ao voluntariado, que estes senhores têm legitimidade para fazer o que bem entendem, continuando a andar de chauffeur e de carro topo de gama enquanto sobem o IVA em mais 2%, cortam nas pensões, cortam nos salários da função pública e o diabo a sete! Pior do que isso é que o "povo", o mesmo que se devia revoltar e ir para a rua em busca de tornar a Cidade dos Homens na Cidade de Deus, enquanto tiver fundos de desemprego e RSI's vai continuar a votar nos mesmos...
Podia, sim, ser um verso de um qualquer grande poeta (até um dos nossos portugueses que, como já disse várias vezes, são muitos e dos melhores do mundo no género, por muito que quase sempre desprezados). Mas é mesmo Lady Gaga, no meio de uma música pop "orelhuda" [acrónimo eurovisionista para má], Alejandro... «She hides true love en su bolsillo».
Metro, carreira 11 da vimeca, escola, carreira 2 da vimeca, escola, carreira 13 da vimeca, casa, cama. Isto durante um aninho... Vá, até Junho do ano que vem, só... Espero que comigo ainda vivo. A todos peço oração. A propósito de oração, partilho ["repartilho", diz o neologista] a última estrofe de Para ler aos noviços, do meu caro professor padre José Tolentino Mendonça:
A grande vantagem de se ter professores geniais e preocupados com a carreira académica dos seus alunos, é que de propostas individuais vagas se chega a propostas concretas válidas e desafiantes. Do meu interesse pessoal em trabalhar a dimensão ética das Bem-Aventuranças passei para o interesse, não menos pessoal, em trabalhar a dimensão da auto-consciência paulina, em conjunto com os outros colegas de acompanhamento de dissertação, trabalhando depois, em concreto, a teologia da fraqueza. De facto, o Apóstolo diz aquilo que deveria ser a experiência de todo o cristão (notável é que aquilo que ele diz seja, de facto, a sua própria experiência de fé):
Começa já no dia de hoje (embora no meu sistema de contagem de dias seja amanhã, visto que só mudo de dia quando durmo) o, assim Deus queira [pós-graduações, mestrados, doutoramentos, podem sempre trocar-me as contas à vida], meu último ano como estudante. Os nervos do primeiro dia de aulas estão presentes, como no primeiro dia, não me deixando descansar em condições.Quando encostam
ou abrem
o portão
do pátio do Duarte
na minha rua sossegada
à tarde
é como se os músicos
afinassem os instrumentos
antes do concerto.
Adília Lopes, Caderno, & etc 2007.
Que raio de país é este, onde além de termos um primeiro-ministro que conclui o curso a um domingo se quer para presidente da Federação de futebol um ex-jogador que terá aceitado dinheiro para apoiar um partido político (curiosamente o mesmo do senhor que acabou o curso ao domingo...)?! Isto só está entregue à bicharada porque "o povo" assim o quer. E depois venham cá Carlos Cús dizer que o povo não é estúpido... Enfim...
Com o tempo de férias de verão a chegar ao fim, calhou-me querer ouvir o último álbum dos GNR, Retropolitana. E, meus amigos, acho que encontrei um bom barómetro para ver quem gosta de música. Excepto para o caso daqueles cavalheiros com quem partilho o dom da amizade e que só gostam de música erudita, abrindo apenas excepções para grupos com quem tenham afinidade sentimental. Quem gostar de música contemporânea e, em particular, de música portuguesa em português (sim, que para mim música portuguesa é a feita por portugueses, não vá eu um dia destes querer ter uma banda a cantar em grego clássico, em sânscrito ou numa língua inventada por mim e depois fique um apátrida) dificilmente não gostará deste ábum.
Para um gajo como eu, ler, a pouco mais (ou menos?) de uma semana do fim das férias, metade dos livros a que se havia proposto para este período, é um verdadeiro acontecimento. E foram, de facto, bons acontecimentos. Li O Breviário das Más Inclinações e As mentiras que os homens contam. São livros diferentes, mas com alguns pontos em comum. Ambos são histórias recheadas de humor, por vezes com uma linguagem demasiado agressiva para alguns leitores, mas que não dão só vontade de rir (nem sempre vontade de rir). Dão vontade de pensar, de saber mais (O Breviário das Más Inclinações ensina-nos muito sobre árvores, plantas, costumes e coiso e tal do Portugal dos anos 30-60; As mentiras que os homens contam situa-nos no contexto cultural do Brasil), de ler mais...