blogue de poesia e teologia.

aqui não se escreve segundo o acordo ortográfico de mil novecentos e noventa.

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sexta-feira, 31 de julho de 2026

mãos na anca

as mulheres são a luta diária,
a cara gasta do sol no campo
pelo alimento dos filhos,
o chão que sustenta a casa,
o forte de pedra contra o vento nos dias agrestes,
a rocha que segura as ondas,
as mãos na anca para agarrar a vida,
o céu, o mar, os infernos, o mundo,
as mulheres são a máquina imparável
que alegra o coração dos filhos e da vida

quinta-feira, 4 de junho de 2026

desiderio

sonhar um dia novo
sem tarefas a cumprir
que não seja pisar
com os pés descalços
a caruma seca
e poder parar
para ver as flores
e escutar os pássaros
cantar outra vez
o teu nome,
é sempre cada sílaba
do teu nome
o que eles cantam

quarta-feira, 27 de maio de 2026

luz difusa

as boas pessoas que se cruzam
nos nossos caminhos
são como a brisa que corre
depois dos dias de calor

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Ian Curtis

queria a coragem de escrever
uma canção melancólica,
dizer da vida que muitas vezes entedia
mas que também traz pessoas
que nos vão salvando,
do tédio que se mistura com o amor,
dos dias em que nem há raiva
para traduzir em acordes,
das palavras que podíamos preferir
a simplesmente ir embora
sem deixar rasto que não esteja
em bobines demasiado gastas

domingo, 15 de março de 2026

o rio passa

sento-me no miradouro
em frente ao guadalquivir
e agradeço a presença dos pássaros,
falei ao telefone aqui e do outro lado
perguntaram-me pelo som dos pássaros.
há olivais ao fundo, a perder de vista,
e sinto cantares de trabalho
a subir a colina, deslizam de regiões longínquas
e vêm morar aqui, a embalar os pássaros,
uma colónia de gatos que cá passa os dias,
também a mim me lembram que a paisagem
é um património imaterial que um dia
te hei-de mostrar, quando corrermos o mundo

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

graciñas

a livraria fica duas acima
da casa de violeta.
entro como se ela tivesse passado aqui
entre gravações da série,
como se também ela se tivesse dirigido
à estante dos poetas galegos
em busca de um livro para sentir a terra,
para aqui se sentir em terra.
escolho feliz idade, como se fossem
os dedos dela a pegar o livro,
un libro moi lindo, diz a mocinha na caixa,
antes de dizer graciñas,
uma forma de agradecimento que,
como o livro e a companhia imaginária da actriz,
caminha dali para fora bem junto ao coração

sábado, 24 de janeiro de 2026

saxicola rubicola

invado o campo, aqui
é o território dos pássaros.
ancorado num caniço que o vento partiu
olho um passarito e o passarito olha-me.
permanece ali, não sou ameaça,
não vou largar pedras com a mão,
nem gritar, nem assobiar como se soubesse a sua fala,
estou ali, apenas, e olhamo-nos,
partilhamos um lugar.
preciso de partilhar o lugar dos pássaros,
precisamos todos de habitar os lugares dos pássaros

morning after

depois da tempestade
resta o som da água
a entrecortar o silêncio 
para correr rumo aos rios

saio de casa para ver os restos
da destruição, os ramos caídos,
a terra vermelha que invade o alcatrão,
e procurar o mistério
das fontes desta água
que ouço correr em todo o lado

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

fogos fátuos

encerra mais um ano
e vou com a confiança
de já ter visto o fogo

falta ainda
aprender a segurar o fogo com as mãos 
para aquecer o coração

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

filigrana

passará pelo crisol, a vida,
restarão no cadinho as impurezas,
amores de pechisbeque,
sempre e ainda as mágoas,
as incontáveis dores do mundo,
descerá escorrendo
a verdade do que fomos vivendo,
os dias felizes que há,
vai teimando em haver

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

manus mundæ

em noites incertas,
noites de estrelas altas no céu,
prometia apenas dar-te a mão
e acompanhar o teu silêncio

domingo, 26 de outubro de 2025

domingo, 28 de setembro de 2025

lucky man

em algumas civilizações 
a sorte vem por trazer ao peito 
uma lasca de vidro
em forma de malagueta.
noutras, quando se vê um anão
ao raiar do dia.
continuo a acreditar nos discursos:
a sorte, como a paz verdadeira,
dá muito trabalho 

coisas do coração

as canções dizem
mil e uma outras coisas,
é função dos poemas trazer
uma outra mensagem:
o amor é um lugar solitário
para viver a companhia

domingo, 31 de agosto de 2025

bomba relógio (título roubado de uma canção)

as memórias são um espaço de traição. 
não relembramos, criamos histórias do que foi,
a verdade é sempre outra coisa,
um tique taque a alertar
para a vida que rebentará ainda
e dará flores suficientes
para encher o jardim municipal