blogue de poesia e teologia.

aqui não se escreve segundo o acordo ortográfico de mil novecentos e noventa.

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domingo, 15 de março de 2026

o rio passa

sento-me no miradouro
em frente ao guadalquivir
e agradeço a presença dos pássaros,
falei ao telefone aqui e do outro lado
perguntaram-me pelo som dos pássaros.
há olivais ao fundo, a perder de vista,
e sinto cantares de trabalho
a subir a colina, deslizam de regiões longínquas
e vêm morar aqui, a embalar os pássaros,
uma colónia de gatos que cá passa os dias,
também a mim me lembram que a paisagem
é um património imaterial que um dia
te hei-de mostrar, quando corrermos o mundo

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

graciñas

a livraria fica duas acima
da casa de violeta.
entro como se ela tivesse passado aqui
entre gravações da série,
como se também ela se tivesse dirigido
à estante dos poetas galegos
em busca de um livro para sentir a terra,
para aqui se sentir em terra.
escolho feliz idade, como se fossem
os dedos dela a pegar o livro,
un libro moi lindo, diz a mocinha na caixa,
antes de dizer graciñas,
uma forma de agradecimento que,
como o livro e a companhia imaginária da actriz,
caminha dali para fora bem junto ao coração

sábado, 24 de janeiro de 2026

saxicola rubicola

invado o campo, aqui
é o território dos pássaros.
ancorado num caniço que o vento partiu
olho um passarito e o passarito olha-me.
permanece ali, não sou ameaça,
não vou largar pedras com a mão,
nem gritar, nem assobiar como se soubesse a sua fala,
estou ali, apenas, e olhamo-nos,
partilhamos um lugar.
preciso de partilhar o lugar dos pássaros,
precisamos todos de habitar os lugares dos pássaros

morning after

depois da tempestade
resta o som da água
a entrecortar o silêncio 
para correr rumo aos rios

saio de casa para ver os restos
da destruição, os ramos caídos,
a terra vermelha que invade o alcatrão,
e procurar o mistério
das fontes desta água
que ouço correr em todo o lado